Poupança
Depósitos a prazo vs. Certificados de Aforro: qual rende mais?
Poupar não é investir, e isso importa
Existe uma confusão muito comum quando o assunto é dinheiro: tratar poupar e investir como se fossem a mesma coisa. Não são.
Poupar é preservar. É guardar dinheiro de forma segura, com acesso garantido quando precisas, sem te preocupares com flutuações de mercado. Investir é crescer. Aceitas algum risco em troca de um potencial retorno maior a longo prazo.
Esta distinção não é académica. É prática e muda completamente onde deves colocar o dinheiro.
O teu fundo de emergência, aqueles 3 a 6 meses de despesas que cobrem uma situação inesperada (perder o emprego, um carro que avaria), não pode estar investido em ETFs ou ações. Precisa de estar disponível, seguro e estável. O mesmo vale para poupanças com objetivo de curto prazo: férias no próximo verão, obras em casa, o portátil novo.
Para esse dinheiro, a prioridade é outra: segurança e liquidez primeiro, rentabilidade a seguir.
Onde guardar o dinheiro que não deve estar numa conta à ordem
O problema da conta à ordem é simples: na maioria dos bancos portugueses, a taxa de juro é zero, ou tão próxima disso que não faz diferença. O dinheiro parado não cresce, e com inflação perde poder de compra ao longo do tempo.
Isso não significa que tens de arriscar. Existem duas alternativas acessíveis, seguras e populares em Portugal que conseguem fazer melhor do que uma conta à ordem sem te exporem a volatilidade de mercado: os depósitos a prazo e os Certificados de Aforro.
São instrumentos diferentes, emitidos por entidades diferentes, com mecânicas distintas. Vamos a isso.
Depósitos a prazo: flexibilidade com prazo definido
Um depósito a prazo funciona de forma simples: entregas uma quantia ao banco por um período acordado (3, 6 ou 12 meses, tipicamente), e no final recebes o capital de volta mais os juros à taxa combinada. Capital garantido pelo Fundo de Garantia de Depósitos até 100.000 € por titular e por instituição (numa conta com dois titulares, a proteção sobe para 200.000 €).
O que tens a ganhar
- Fácil de contratar. Praticamente qualquer banco oferece esta opção, muitas vezes mesmo na app
- Prazos variados que se adaptam ao teu horizonte temporal
- Previsibilidade total: sabes exatamente quanto vais receber no final
O que tens de ter em conta
A limitação principal é a liquidez condicionada. Se precisares de levantar o dinheiro antes do fim do prazo, o banco pode cobrar uma penalização, normalmente através da perda parcial ou total dos juros. Antes de avançar, lê sempre a Ficha de Informação Normalizada.
Onde estão as taxas em junho de 2026
Importa perceber o nível atual do mercado, porque mudou muito desde os picos de 2023. A taxa média dos novos depósitos a prazo até 1 ano ronda 1,36% (TANB), segundo o Banco de Portugal. As melhores ofertas andam entre os 2,5% e os 3%, normalmente para novos clientes, prazos específicos ou via canais digitais. Compara sempre pela TANL (a taxa já líquida de imposto), não pela TANB.
Exemplo concreto
Imagina que colocas 5.000 € num depósito a 12 meses a uma boa taxa atual de 2,5% (TANB). No final, recebes 125 € de juros brutos. Sobre esses juros incide retenção na fonte de 28% de IRS (a taxa liberatória em Portugal Continental; 19,6% na Madeira e nos Açores), o que significa um rendimento líquido de 90 €. Se ficasses pela taxa média de mercado (1,36%), seriam apenas cerca de 49 € líquidos. Não muda a tua vida, mas é claramente melhor do que zero.
Certificados de Aforro: a alternativa do Estado português
Os Certificados de Aforro são emitidos diretamente pelo Estado português, através do IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública). Por isso, são frequentemente considerados um dos instrumentos mais seguros disponíveis em Portugal: o risco de contraparte é o risco soberano do Estado. A série atualmente em comercialização é a Série F.
Como funciona a taxa
A taxa base da Série F é a média da Euribor a 3 meses, atualizada mensalmente, com um limite máximo de 2,5% (e mínimo de 0%). Não há uma "componente fixa" somada à Euribor, como acontecia na série anterior. A isso somam-se, a partir do 2.º ano, prémios de permanência que aumentam com o tempo que mantens o dinheiro investido. Como os prémios são adicionados depois do limite da taxa base, a remuneração total pode ultrapassar os 2,5%, chegando, no máximo, a cerca de 4,25% no fim do prazo.
Em junho de 2026, a taxa base bruta para novas subscrições está em 2,215%. À data, isto coloca os Certificados de Aforro acima da taxa média dos depósitos a prazo (1,36%), embora as melhores ofertas de depósitos consigam igualar ou superar. Confirma sempre o valor atualizado no portal do IGCP antes de decidir, porque a taxa muda todos os meses.
Liquidez
Uma vantagem relevante: podes resgatar após os primeiros 3 meses, sem perderes os juros já acumulados. Não é liquidez imediata como numa conta à ordem, mas é consideravelmente mais flexível do que muitos depósitos a prazo.
Barreiras de entrada
Existem duas coisas a ter em conta. Primeiro, há um limite máximo de subscrição por conta aforro, que desde abril de 2026 é de 250.000 € na Série F (500.000 € acumulado com a Série E). A subscrição mínima inicial é de 100 €, com reforços a partir de 10 €. Segundo, a subscrição e gestão fazem-se através do AforroNet (a plataforma online do IGCP), mas também é possível subscrever nos CTT, Espaços Cidadão e na rede de vários bancos. Requer registo prévio numa conta aforro. Não é complicado, mas é um passo extra que tens de dar.
Qual escolher, e como automatizar a poupança
Não existe uma resposta universal. Mas existe uma forma simples de pensar nisso:
Se queres simplicidade máxima e já tens conta bancária, o depósito a prazo é provavelmente o caminho mais direto. Dois cliques na app e está feito. Vale a pena comparar ofertas, porque a diferença entre a média e as melhores taxas é grande.
Se tens um horizonte de médio prazo (digamos, 1 a 2 anos ou mais) e queres beneficiar de taxas ligadas à Euribor com prémios de permanência, os Certificados de Aforro merecem que lhes dês atenção, sobretudo agora que a taxa base está acima da média dos depósitos.
Se tens volumes significativos a proteger, pode fazer sentido diversificar entre os dois, sem nunca ultrapassar os limites de garantia num único banco.
Para teres uma ideia concreta, aqui está o que rendiam 5.000 € durante 12 meses, à data de junho de 2026:
| Onde | Taxa (TANB) | Juros brutos | Juros líquidos (após 28%) |
|---|---|---|---|
| Conta à ordem | ~0% | 0 € | 0 € |
| Depósito a prazo (média de mercado) | 1,36% | 68 € | ~49 € |
| Depósito a prazo (boa oferta) | 2,5% | 125 € | 90 € |
| Certificado de Aforro Série F (taxa base, 1.º ano) | 2,215% | ~111 € | ~80 € |
Mas aqui está o segredo que ninguém te conta: a escolha do instrumento é menos importante do que o hábito de poupar. A consistência bate a otimização.
O truque que funciona, e que eu próprio sigo, é automatizar a transferência. No dia a seguir ao salário, o dinheiro destinado a poupança sai automaticamente para o instrumento escolhido. Não depende de força de vontade. Não há tentação. Acontece e pronto.
Próximo passo concreto
- Vai ao site do IGCP (igcp.pt) e consulta a taxa atual dos Certificados de Aforro
- Compara com as taxas dos depósitos a prazo nos principais bancos onde já tens conta (olha para a TANL, não só para a TANB)
- Escolhe com base no teu horizonte e na tua tolerância à "burocracia"
- Configura uma transferência automática para o dia seguinte ao teu salário
Este artigo tem fins educativos e informativos e reflete taxas e condições à data de junho de 2026, que mudam com frequência. Não constitui aconselhamento financeiro personalizado. Cada situação é diferente, e para decisões relevantes, considera falar com um profissional qualificado que conheça a tua situação concreta.
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