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Fundos geridos valem o preço? A evidência responde

Hugo Venâncio6 min de leitura
Fundos geridos valem o preço? A evidência responde
Foto de Joshua Mayo no Unsplash

Há uma pergunta que me fazem muitas vezes, de formas ligeiramente diferentes, mas com o mesmo núcleo: "Vale a pena tentar escolher as ações certas — ou contratar alguém que o faça por mim?"

É uma pergunta legítima. E merece uma resposta honesta, mesmo que não seja a que muita gente quer ouvir.

Neste artigo não te vou dizer o que fazer. Vou mostrar-te o que a evidência diz — e deixar-te tirar as tuas próprias conclusões.


Gestão ativa vs. gestão passiva: do que estamos a falar?

Antes de mais, vamos clarificar os termos, porque há muita confusão à volta deles.

Investimento ativo é qualquer abordagem em que alguém — tu ou um gestor profissional — toma decisões deliberadas sobre o que comprar, o que vender e quando. O objetivo é claro: superar o mercado, ou seja, obter um retorno acima do índice de referência. Quando ouves falar em fundos de investimento tradicionais, a maioria são fundos geridos ativamente.

Investimento passivo é a abordagem oposta: em vez de tentar adivinhar quais os ativos vencedores, replicas simplesmente um índice de mercado — como o S&P 500 (as 500 maiores empresas americanas) ou o MSCI World (empresas de todo o mundo desenvolvido). Os ETFs de índice (Exchange-Traded Funds) são o veículo mais comum para fazer isso. Não há ninguém a escolher ações: o fundo limita-se a seguir o índice.

Porque é que a distinção importa? Porque as duas abordagens têm custos, riscos e — como a evidência mostra — resultados históricos muito diferentes. E perceber essa diferença pode valer, literalmente, dezenas de milhares de euros ao longo da tua vida de investidor.

Dito isto: não existe uma abordagem universalmente certa. O que existe é evidência — e cabe-te a ti interpretá-la à luz da tua situação.


O que diz a evidência histórica

Aqui é onde as coisas ficam interessantes — e, para muita gente, surpreendentes.

O relatório SPIVA (S&P Indices Versus Active), publicado regularmente pela S&P, analisa o desempenho de fundos ativos face aos seus índices de referência em vários mercados do mundo. Os resultados são consistentes ao longo do tempo: a maioria dos fundos ativos não supera o índice de referência depois de descontados os custos, na maior parte dos períodos analisados. E quanto maior o horizonte temporal — 10, 15, 20 anos — maior a percentagem de fundos que fica abaixo do índice.

A consultora Morningstar chega a conclusões semelhantes nas suas análises periódicas.

Porquê? Há um conceito central aqui: o alfa. Em linguagem financeira, alfa é o retorno acima do mercado gerado por um gestor através das suas decisões. O problema é que gerar alfa de forma consistente, ao longo de muitos anos, é estatisticamente muito raro — mesmo entre os melhores profissionais da indústria.

Há outro fenómeno que vale a pena conhecer: o viés de sobrevivência. Quando um fundo tem mau desempenho durante anos, muitas vezes é simplesmente encerrado ou fundido com outro. Isso significa que os fundos que "sobram" nas comparações tendem a ser os que tiveram melhor desempenho — o que pode dar uma imagem mais favorável da gestão ativa do que a realidade justifica.

Atenção: a evidência não diz que ninguém bate o mercado. Diz que identificar antecipadamente quem o vai fazer, de forma consistente, é extraordinariamente difícil. E pagar as comissões de gestão ativa na esperança de encontrar esse gestor é uma aposta com odds desfavoráveis — historicamente, pelo menos.


Riscos e custos: o que estás realmente a pagar

Os custos são, talvez, o fator mais subestimado nas decisões de investimento. E não porque sejam escondidos — estão nos documentos — mas porque o seu impacto composto ao longo do tempo não é intuitivo.

No investimento ativo, os custos são tipicamente mais elevados:

  • Comissão de gestão anual (pode rondar 1% a 2% ou mais por ano, consoante o fundo)
  • Comissão de desempenho, em alguns casos — o gestor cobra uma percentagem dos ganhos acima de um determinado limiar
  • Maior rotação da carteira: comprar e vender mais frequentemente gera mais custos de transação e pode antecipar eventos fiscais

No investimento passivo, os custos são geralmente mais baixos:

  • TER (Total Expense Ratio) — o custo anual total do ETF, que em ETFs de índice pode ser muito reduzido (existem ETFs com TER abaixo de 0,10% ao ano)
  • Comissões de corretagem — pagas ao comprar ou vender o ETF na corretora
  • Spread — a diferença entre o preço de compra e venda do ETF no mercado

Mas atenção: o investimento passivo não é isento de risco. Quando o mercado cai, o teu ETF de índice cai com ele — sem amortecimento, sem gestor a tentar minimizar o estrago. E o investimento ativo pode subperformar mesmo em mercados em alta, se o gestor fizer apostas erradas.

Agora o exercício que te peço que faças mentalmente: imagina dois cenários com o mesmo capital inicial e o mesmo retorno bruto do mercado durante 30 anos. Num, pagas 1,5% ao ano em custos. No outro, pagas 0,2%. Essa diferença de 1,3 pontos percentuais ao ano, composta durante três décadas, pode representar uma diferença enorme no valor final da carteira. Há simuladores gratuitos online que te permitem visualizar exatamente este impacto — vale a pena experimentar.


Como começar em Portugal: o contexto prático

Se queres explorar estas abordagens no contexto português, há algumas coisas práticas a ter em conta.

Acesso a ETFs e fundos de índice é feito através de corretoras com acesso a mercados europeus (Euronext, Xetra, etc.) ou americanos. Existem várias opções disponíveis para residentes em Portugal — importa verificar a regulação da corretora (idealmente regulada pela CMVM ou por autoridade equivalente da UE), os custos de transação e as condições de custódia. Não vou recomendar plataformas específicas, mas a pesquisa comparativa é relativamente simples de fazer.

Fundos de investimento ativos estão frequentemente disponíveis nos bancos tradicionais — muitas vezes apresentados como a opção "natural" para poupar e investir. Antes de investir em qualquer fundo, vale a pena consultar o KID (Key Information Document), um documento obrigatório que inclui os custos e o perfil de risco. Compara o TER e, se possível, o desempenho histórico ajustado a custos face ao índice de referência.

Fiscalidade: em Portugal, os ganhos de ETFs e fundos de investimento — tanto mais-valias como dividendos — estão sujeitos a IRS. As regras podem variar consoante o tipo de produto, o país de domicílio do fundo e a forma como são distribuídos os rendimentos. As regras fiscais mudam e têm nuances importantes — consulta sempre o Portal das Finanças ou um contabilista para perceber a tua situação específica antes de investires.


Aviso educativo — importante

Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Nada do que aqui está escrito constitui aconselhamento financeiro, fiscal ou de investimento personalizado.

Cada pessoa tem uma situação financeira diferente, objetivos distintos e uma tolerância ao risco que é só sua. As decisões de investimento — especialmente as de longo prazo — devem ser tomadas de forma informada e, para decisões mais complexas ou de maior impacto, com o apoio de um profissional certificado.

E uma nota final essencial: a evidência histórica não garante resultados futuros. O passado é o melhor dado que temos, mas não é uma promessa.


O próximo passo? Pega no último extrato de um fundo que tenhas — ou que o teu banco te tenha recomendado — e procura o TER. Depois compara com o índice de referência desse fundo nos últimos cinco anos. Esse exercício simples já te diz muito sobre o que estás a pagar — e o que estás a receber em troca.

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