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Bola de Neve ou Avalanche? Escolhe e liquida as dívidas

Hugo Venâncio6 min de leitura
Bola de Neve ou Avalanche? Escolhe e liquida as dívidas
Foto de Vanessa Dyste no Unsplash

Já passei por conversas com pessoas que estavam a pagar três dívidas em simultâneo há dois anos — e o saldo mal se mexia. Não era por falta de esforço. Era por falta de estratégia.

Se tens mais do que uma dívida em aberto, sabes exactamente esta sensação: todos os meses o dinheiro sai, mas a montanha parece não diminuir. A boa notícia é que não precisas de ganhar mais para sair desta situação mais depressa. Precisas de escolher um método e ser consistente.


Porque é que isto importa

Ter várias dívidas em simultâneo — o cartão de crédito, um crédito pessoal, a prestação do carro — cria uma ilusão perigosa: a de que estás a avançar porque estás a pagar. Mas se estás apenas a pagar o mínimo em tudo, provavelmente estás quase parado.

O pagamento mínimo é a quantia mais baixa que podes pagar num crédito sem entrares em incumprimento. O problema é que, nos cartões de crédito e créditos pessoais, esse valor muitas vezes mal cobre os juros do mês. O capital em dívida — o valor que realmente deves — desce muito devagar, ou quase nada. E o banco vai ficando contente.

Sem um plano definido, é fácil prolongar as dívidas anos a mais do que seria necessário e pagar centenas ou milhares de euros em juros que podiam ter ficado no teu bolso.

Escolher uma estratégia, por mais simples que seja, muda o resultado final. E muda também o estado de espírito — porque passas de "estou sempre a pagar e não sei porquê" para "sei exactamente o que estou a fazer e porque é que funciona".


Os dois métodos explicados de forma simples

Existem dois métodos principais para atacar dívidas de forma organizada. Nenhum é perfeito para toda a gente — o melhor método é aquele que vais conseguir manter.

Método Bola de Neve

Pagas primeiro a dívida com o valor mais pequeno, independentemente da taxa de juro. Continuas a pagar o mínimo em todas as outras. Quando liquidares a mais pequena, pegas no valor que lhe pagavas e juntas à prestação da dívida seguinte. E assim sucessivamente.

A lógica aqui não é matemática — é psicológica. Ver uma dívida desaparecer por completo dá uma motivação real para continuar. É como ganhar um nível num jogo: queres continuar a jogar.

Método Avalanche

Pagas primeiro a dívida com a taxa de juro mais alta (a TAN — Taxa Anual Nominal — é o indicador que mostra quanto pagas de juros por ano sobre o valor em dívida). Quando a liquidares, esse valor passa para a dívida com a taxa mais alta a seguir.

Este método é matematicamente superior: poupa mais dinheiro em juros no total. Mas exige mais paciência, porque a dívida com a taxa mais alta pode não ser a mais pequena — e pode demorar mais tempo a desaparecer.

Exemplo concreto

Imagina que tens três dívidas:

Dívida Valor em dívida Taxa de juro anual (TAN) Prestação mínima
Cartão de crédito 400 € 18% 20 €/mês
Crédito pessoal 1.200 € 9% 40 €/mês
Crédito automóvel 3.000 € 5% 80 €/mês

Tens 60 € extra por mês para além dos mínimos.

Com a Bola de Neve: atacas primeiro o cartão de crédito (400 €, o mais pequeno). Juntando os 60 € extra aos 20 € do mínimo, estás a pagar 80 €/mês nessa dívida. Em cerca de 5 meses, o cartão está liquidado. Depois passas esses 80 € para o crédito pessoal, a juntar aos 40 € que já pagas — e assim por diante. Cada vitória acelera a próxima.

Com a Avalanche: atacas primeiro o cartão de crédito à mesma — porque por acaso é também o que tem a taxa mais alta (18%). Neste caso específico, os dois métodos coincidem no primeiro passo. Mas se o crédito pessoal tivesse 20% de juro, a avalanche mandava-te atacar esse primeiro, mesmo sendo maior. É aí que a diferença aparece.


Como aplicar — passo a passo

Passo 1 — Lista todas as dívidas

Abre uma folha de papel ou uma folha de cálculo e escreve, para cada dívida: o valor total em dívida, a prestação mínima e a taxa de juro anual (TAN). Esta informação está no teu contrato ou no extrato mensal. Se não encontrares, liga ao banco — tens direito a saber.

Passo 2 — Escolhe o teu método

Sê honesto contigo próprio. Se já tentaste pagar dívidas antes e desististe a meio, a Bola de Neve pode ser o que precisas para criar momentum. Se tens disciplina e queres mesmo minimizar o que pagas em juros, escolhe a Avalanche.

Não há resposta errada. O melhor método é o que vais cumprir.

Passo 3 — Redireciona qualquer valor extra para a dívida prioritária

Mesmo que sejam 20 € por mês, faz diferença. Não esperes ter uma quantia grande disponível — isso raramente acontece, e entretanto os juros continuam a correr.

Passo 4 — Mantém os mínimos em todas as outras dívidas

Nunca deixes de pagar o mínimo nas dívidas que não estás a atacar directamente. Se entrares em incumprimento, acumulam-se juros de mora (penalizações por atraso), e isso piora tudo. O objetivo é concentrar o esforço extra numa dívida de cada vez — não ignorar as restantes.


Erros comuns a evitar

Continuar a usar o cartão de crédito enquanto tentas pagar o saldo. É literalmente esvaziar um balde com um furo aberto. Enquanto estás a pagar dívida nova, estás a criar dívida nova. Guarda o cartão ou cancela-o temporariamente, dependendo da tua força de vontade.

Pagar aleatoriamente, sem critério. "Este mês pago um bocadinho mais neste, no próximo mês naquele." Esta abordagem parece razoável, mas dispersa o esforço e não acelera nenhuma dívida de forma significativa. Escolhe uma e ataca.

Esperar pelo momento ideal para começar. Não existe. Os juros não esperam, e cada mês que passa é dinheiro que sai do teu bolso. Mesmo 10 ou 15 € extra já mudam o prazo de pagamento de uma dívida pequena.


Próximo passo — e podes dá-lo hoje

Literalmente hoje: abre o teu banco online ou pega nos papéis dos teus créditos e escreve as três colunas — valor em dívida, prestação mínima, taxa de juro. Cinco minutos.

Depois decide: bola de neve ou avalanche? Identifica qual é a primeira dívida a atacar e calcula quanto podes redirigir para ela este mês.

Se olhares para o teu orçamento e não vires onde encontrar esses 20 € extra, não te preocupes — num próximo artigo falo especificamente de como construir um orçamento mensal realista para o contexto português e onde normalmente está a margem escondida.

O mais importante é começar. Com um plano definido, até os meses em que consegues pagar apenas o mínimo continuam a ser meses em que sabes exactamente onde estás e para onde vais.


Este artigo tem fins exclusivamente educativos e não constitui aconselhamento financeiro personalizado. Cada situação é diferente — se tens dívidas complexas ou em incumprimento, considera procurar o apoio de um profissional ou de entidades como o CNAL (Centro Nacional de Apoio ao Endividamento).

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